quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O céu é o limite para os astrônomos do Cáucaso Norte

Grande Telescópio de Azimute impulsiona a ciência na pequena Nizhniy Arkhyz


(Diário da Rússia) Ser um astrônomo na Rússia é fazer parte de um grupo muito seleto. Apenas 50 novos profissionais do ramo são formados pelas universidades do país a cada ano. É bastante notável, portanto, o fato de cerca de 100 pessoas que partilham esta rara profissão viverem na pequena aldeia de Nizhniy Arkhyz, situada em um pitoresco vale cercado pelas montanhas do Cáucaso.

A alta concentração de astrônomos na vila se explica pela proximidade do Grande Telescópio de Azimute (LAT), um dos maiores do mundo, usado por apenas 30 pessoas ao longo de sua história.O chefe destas instalações, Yury Balega, diz que hoje em dia, todas as informações coletadas pelo equipamento são passadas a um computador e que a função dos astrônomos é processar e interpretar os dados, trabalho que pode levar meses, e até anos.

Grandes quantidades de dados estão constantemente sendo trocados, e por isso os astrônomos costumam trabalhar em equipes, que normalmente são formadas por especialistas de várias partes do mundo.

Apesar do ritmo lento de trabalho, a vida no Grande Telescópio de Azimute é bastante confortável. Além das instalações de recreação e de uma agradável cafetaria, há vistas deslumbrantes dos picos das montanhas cobertas de neve. Existe, entretanto, uma grande desvantagem. Todas as manhãs, às 8h em ponto, os astrônomos são acordados pelos turistas. O lugar abriga até 500 visitantes por dia, o que não é pouca coisa para um local a mais de 2 mil metros acima do nível do mar.

Nos anos 1970 e 1980, quando o LAT ainda era o maior telescópio do mundo, Nizhniy Arkhyz hospedou várias conferências internacionais. Mas apesar de todo o prestígio, Balega garante que a vida de um astrônomo soviético não era fácil. Segundo ele, as observações começavam às 17h e continuavam até às 7h, em temperaturas extremamente frias. Para piorar, o astrônomo não podia nem se mexer direito dentro da cabine, porque os movimentos podiam provocar tremores em todo o conjunto do telescópio, borrando a imagem das estrelas na placa da foto.

Atualmente, os astrônomos raramente têm um minuto para si mesmos durante a jornada de trabalho. Sergei Fabrika, que trabalha no LAT, conta que seu dia começa com a leitura de novos artigos escritos por seus colegas de todo o mundo. Depois, ele começa a processar os dados coletados pelo telescópio e ainda tem tempo de se encontrar com estudantes e pós-graduandos. Outros astrônomos tiram proveito de uma pista de esqui ao lado do edifício que abriga o telescópio. Balega, por sua vez, começa cada dia com uma corrida e um mergulho no rio, independentemente do clima.

O Grande Telescópio de Azimute ainda é um dos 20 maiores do mundo, e seus horários são extremamente disputados. Astrônomos da Alemanha, França e Estados Unidos desenvolvem muitos projetos em conjunto com os cientistas da república de Karachay-Cherkessia, onde se situa o vilarejo de Nizhniy Arkhyz.

De acordo com Balega, o LAT é poderoso o suficiente para ver galáxias a cerca de 13 bilhões de anos-luz de distância, ou seja, bem na borda do universo conhecido. De fato, diversas descobertas foram feitas ali. Cientistas do observatório aprenderam a determinar a massa de estrelas gigantes, cujo nascimento e evolução ainda são assunto de debates acalorados entre os astrofísicos.

Para Balega, as observações feitas no LAT podem ter consequências tão amplas que nem os cientistas responsáveis conseguem prever. "A ciência é um processo constante de descoberta (...). Tendo compreendido como o Sol funciona, os físicos foram capazes de construir a bomba de hidrogênio”, segundo explica o diretor. Para ele, e para centenas de especialistas ao redor do mundo, uma vez que compreendermos a natureza de outros corpos celestes, poderemos descobrir novas fontes de energia, ou aprender os segredos da matéria escura. É esperar para ver. Afinal, o céu é o limite.

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